sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Mais do mesmo.


    Com a testa colada na vidraça, ele tinha uma visão distorcida e colorida em forma de borrões do que deveria ser a cidade sendo banhada pela chuva que despencava. Seria bonito, se não fosse trágico. Não para mim, mas pra ele que estava sentindo muita pena de si mesmo. Fraco que é, quis chorar, mas nem pra isso serviu.
     Eu que por infelicidade sou obrigado a acompanhá-lo e vejo e sei tudo que ele faz, substituí a pena que eu sentia pelo tédio. Não porque eu quis assim, mas assim se fez.
     Sua respiração embaçara todo o vidro. Fez uma carinha alegre com o dedo. Que clichê! E ainda tentou plagiar o assovio de “Doce Solidão”. Se despediu da janela e foi deitar. Menos mal, assim me dá uma trégua dessa novela mal escrita.
     Alá, ta deitado segurando o celular, aposto que quer mandar uma mensagem. Mas não vai não. Faz isso toda noite, o covarde.
     Ta discando. Olha! To bege!
    A coisa toda é que ele não namora mais uma garota aí. Ele não sabe, mas mesmo com toda sua insignificância, merecia algo melhor que aquelazinha. Porque ele pode ser tolo e chato, mas é bonzinho. Percebeu aí o problema né? Se fodeu tanto, mas tanto, com a sirigaita que chegaria a me causar pena se não me desse sono.
     A história dele não é diferente de nenhuma outra história de amor não correspondido, é apenas mais uma e é por isso que me cansou. Ter que narrar isso pra você agora é humilhante. Eu poderia estar contando algo cheio de emoção, aventura. Sei lá, tiros, explosões... mas Arfh! Esse Mané... Queria que pelo menos se envolvesse com álcool ou drogas pra ver se dava mais animação à minha vida e à dele, mas nem antidepressivos ele toma.
     Uma vez ele foi a uma cartomante e pra minha infelicidade já ta previsto: vai ter vida longa. Eu é que quis morrer né? É, cada um tem a sua sina. A minha é essa. A dele é ser esse bosta.
      Meu carma nunca me permitiu ter contato com outros como eu, sendo assim, nunca amei, mas se for pra passar pelas coisas que esse “tiongo” passa... To fora!
     Nossa, mas o papo ta rendendo. Alá... ta “todo sorriso”. Dessa vez ela resolveu dar  graça pra ele. Da até pra ouvir o coraçãozinho dele batendo mais forte. Judiação. O dela também ta descompassado, mas claro que não é por amor. 
     Ele nem imagina que a partir desse momento sua vida mudará pra sempre pois  vai se ligar a um outro coraçãozinho que não é o teu, o dela, nem muito menos o meu porque eu não tenho isso, mas que neste momento já bate e começa a fazer parte desta história. Um dia ele vai saber que não é sangue do seu sangue, mas aí já vai ser tarde. Vai amar pra sempre.
     Quase chega a não ser ilícito, de tão comum, mas com certeza vai deixar esse conto da carochinha do Paraguai mais animado.


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Ilustra que roubei do meu querido Mário Brito. Dê uma olhada em mais alguns excelentes trabalhos dele  AQUI.


5 comentários:

  1. o Val, ai o Val! huahua

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  2. Conto da carochinha?Muito bem escrito por sinal.E com figuras de linguagem que dizem muito mais.Eu vi um filme aqui.E ficou tão interessante...

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  3. Um Shakespeare entediado você se parece... Huahuahua

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  4. Grande Valmir, você fez um conto cool! Achei o máximo! Um esperto espectador do infortúnio alheio sempre age com a sabedoria dos vivos, ainda que se envolva (emocionalmente ou não) com o distanciamento dos sábios.
    Um forte abraço, meu amigo, e coloque sempre novos ingredientes nessa sopa. A gente degusta...

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  5. Visitei o blog com outra intenção, mas gostei do que encontrei

    Achei divertido a troca de vocabulários quase que escrito por alguém com dupla personalidade. UHAUhaHA

    O nome nem se fala adorei!

    Voltarei aqui varias vezes com certeza!

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